Crítica | Toy Story

Situado em uma época que animações infantis eram quase todas feitas de modo cartoonizado, na metade dos anos 90, Toy Story entrou para a história como a primeira animação longa-metragem em 3d, fazendo um sucesso estrondoso, trazendo uma historia terna, bonita e bem ao estilo Disney. Co-produção com os estúdios Pixar, a historia gira em torno da insegurança do xerife Woody, interpretado por Tom Hanks na versão original, com voz de Alexandre Lippiani (e posteriormente de Marco Ribeiro em outras dublagens e em continuações), toda a trajetória do herói é contada sobre a vivência deste personagem, que personifica a premissa do filme: e se brinquedos tivessem sentimentos.

Esse era o primeiro filme longa-metragem da Pixar, o logo da empresa já é mostrado aqui como o pequeno abajur chamado Luxo Jr. (que era estrela dos curtas apresentados antes de Toy Story), e já no início é apresentada uma aventura infantil, onde o imponente cowboy detém Bart Caolho, na brincadeira orquestrada por Andy Davis que tem como vilão o Cabeça de Batata (um dos mais impacientes amigos de Woody durante todo o filme, curiosamente). O garoto que é dono dos brinquedos e ser supremo daquele universo faz o que quer com os bonecos, bonecas e acessórios.

Mal dá para perceber nesse início que a casa em que a família que Andy mora é grande demais para a família Davis, com apenas três pessoas, e que Molly, a irmã mais nova do menino  dorme em seu quarto por conta da mudança e por seu quarto já não está mais habitável, no entanto isso é subalterno, o que realmente importa é a criatividade monstruosa do garoto, que faz toda uma narrativa coesa com brinquedos pré escolares, uma boneca de porcelana, dinossauro, um cachorro mola, um cofre etc. Para muitos fãs, é a inventividade da criança que ajuda a dar vida aos brinquedos.

A música de Randy Newman pontua bem todas as emoções e receios dos brinquedos, que sempre ficam apreensivos em datas festivas, por conta do medo de serem substituídos, e o xerife apesar de parecer melhor resolvido que os outros, também demonstra fragilidades em seu pensamento, acreditando que pode ser substituído. No Brasil as músicas são executadas por Zé da Viola, um músico, que dá versões lindas para os temas de cada um dos personagens.

Incrivelmente a fluidez dos movimentos dos brinquedos soa natural, quase tudo que os envolve prima pela naturalidade, levando em conta obviamente que é plástico e não carne que é aritculada, desde os brinquedos maiores até os pequenos tem algum destaque e uma particularidade, como os soldados verdes que servem de vigia e cuidam do perímetro do quarto de Andy. A parte em que um deles se fere ao tenta espionar a abertura dos presentes é sensacional, pois o coloca aos cuidados médicos de soldados específicos, fazendo lembrar os clássicos filmes de guerra como Platoon ou Tora Tora Tora, e toda a inteiração deles emulando ao comportamento dos fuzileiros americanos.

A chegada do astronauta que co-protagonizaria o longa  traz um paradigma já visto nos cinemas. O gênero western, nos Estados Unidos deixou de ser popular graças ao boom de filmes sobre máfia, tornando a criminalidade do faroeste em algo desorganizado o suficiente para não ser mais tão atraente. A exploração do Western Spaghetti nos filmes de ação italianos mostrou como os europeus se valiam de tramas mais genéricas para ganhar alguns trocados, e tiveram suma importância para o cinema de ação, mas foi justamente com Star Wars que os faroestes italianos foram rareando, ao ponto de deixar de ser moda. Em seu lugar vieram cópias das space operas, que logo rarearam também por ter custos bem mais altos e resultados mais precários.  O script faz questão de referenciar todo esse cenário, ainda que de forma bem leve.

A parte dramática casa bem com o humor ácido do roteiro de Joss Whedon, Andrew Stanton, Joel Cohen e Alec Sokolow, as questões envolvendo rejeição e substituição são questões que conversam com as pessoas mais adultas, ainda que isso tenha bastante eco com toda a questão de aceitação típica das épocas iniciais da vida de crianças, nas fases escolares., podendo ocasionar casos sérios até de bullying.

É curioso como mais da metade das tiradas cômicas funcionarem com os adultos. O ideal da Pixar sempre passou por ter uma camada de diversão e escapismo que abraça as crianças, enquanto há todo um arcabouço dramático que contempla adultos. Aqui se vê referências leves a Star Wars e Jornada nas Estrelas, por exemplo, além de referencias a marcas conhecidas e outras próprias, como o Pizza Planet, tal qual ocorria com os filmes de Quentin Tarantino, que também tinha marcas próprias. Mesmo as fragilidades da produção, como os humanos feios e cabeçudos, fazem sentido nesse primeiro capítulo, e ajuda a salientar que essa é uma historia sobre brinquedos, caso não tenha ficado claro no título.

Dentro ainda das sensações típicas da vida adulta, há o momento em que Woody perde a cabeça, ao ver um caminhão vindo, ele assume para si o protocolo de brinquedos e “desmaia”. Seu desespero era tanto por perder seu “dono” que ele tenta se suicidar, pois para ele não há mais motivos para existir sem o humano para o qual tem devoção. A montanha russa emocional pelo qual o filme passa traz a tona os medos mais primitivos e primários, além de desconstruir paradigmas preconceituosos, principalmente ao mudar para o cenário do quarto de Sid, que aliás, é um belo advento por referenciar os Terror Giallo italianos e até Canibal Holocausto, clássico do found footage, além do Gabinete do Doutor Caligari e A Pequena Loja de Horrores.. Aqui, os brinquedos mutantes do garoto mau não são como seu proprietário, mas são julgados por sua aparência, que além de enganosa, evidencia que Woody precisa evoluir muito para ser um sujeito bom.

Passa mais da metade do filme para enfim dar continuidade a jornada de Buzz, e para ter para ele uma música dedicada na voz  de Zé da Viola – Voar eu não vou nunca mais – e ter a revelação de sua real origem, que aliás é tão chocante que o faz desmaiar após cair para sua quase morte. Além de ser um paralelo simples e inteligente com o mito da Caverna de Platão. Esse momento também abre referências a Al Toy’s Barn, a loja de brinquedos do vilão humano do 2ª filme, no comercial que o astronauta assiste, além de ser a chance de Tim Allen e Guilherme Briggs brilharem como o deprimido e inseguro brinquedo ter noção do que é, além de mostrar o quão frágil é a psique deles, com o segundo personagem caindo facilmente em depressão.

Toda a mentalização, sobre dedicar sua vida em torno de um ideal, mesmo que no caso dos brinquedos seja servir a um amo/criança é bem madura, principalmente no que toca o desenvolvimento da imaginação das crianças, e essa é a maior missão de Woody, Buzz e os demais brinquedos, mesmo os rejeitados e alterados por Sid fazem isso.

Mesmo que o sentimento de fraternidade de Woody e Buzz seja trabalhado de maneira um pouco rápido no que toca o convencimento que o xerife faz ao patrulheiro espacial, toda a trajetória para este rumo faz um enorme sentido e evolui ainda mais nos outros filmes. Nesse  ainda, a evolução de Woody é enorme, pois ele passa por cima de seus preconceitos, arquiteta um plano que foge as regras não ditas e impostas aos brinquedos e é claramente a frente do seu tempo e a frente do estigma que o toca de fazer referência a uma época tão distante como a do velho oeste. Ele até mais que Buzz merece o espaço, a fronteira final como ápice.

Proximo dos  atos finais, há um trabalho em equipe, dos brinquedos de Andy, relembrando que essa não é uma fita individualista, e mesmo no natal, onde o vaqueiro assume que o patrulheiro espacial é mais importante que ele, há uma clara demonstração do quanto eles são íntimos e amigos, superando a vaidade individualista de ambos, trazendo uma historia que fora os moralismos, é rica e cheia de nuances. A Pixar não poderia ter uma pedra fundamental melhor que Toy Story, sem sombra de dúvida.

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