Resenha | Desafio Infinito

No inicio da década de noventa, a Marvel começou apostar em sagas cósmicas, para competir com a DC que há pouco tempo havia amarrado todas as pontas soltas de sua cronologia em Crise nas Infinitas Terras, com seus heróis reiniciando suas aventuras a partir de 1986. Para isso, chamaram Jim Starlin, escritor acostumado a desenvolver aventuras cósmicas — Dreadstar, Odisseia Cósmica, Novos Deuses —, e assim surgiu a continuação de Thanos: Em Busca de Poder.

Desafio Infinito começa com uma conversa estranha envolvendo Thanos e Mefisto. O titã profano voltou dos mortos, ressuscitado pela Morte. O motivo desse retorno, seria um presente para sua, faria então uma chacina universal, pois aparentemente há mais pessoas vivas naquele momento do que a quantidade mortas decorrer em todo o decorrer da toda historia. A arte de George Pérez — artista que ficou conhecido pelo trabalho em Crise nas Infinitas Terras, Novos Titãs e Mulher-Maravilha, além de ser especializado em desenhar muitos personagens num mesmo quadro — flui muito bem junto à historia, mas devido a problemas de prazo, não foi capaz de terminar toda a série, sendo auxiliado por Rom Lim.

Starlin, como criador do personagem vilanesco, conseguiu manipular bem a trama para valorizar seu personagem, tornando ele possuidor das seis joias do infinito – Alma, Mente, Espaço, Poder, Tempo, Realidade – transformando-o em um ser ainda mais poderoso do que aqueles que o trouxeram de volta, ao ponto de assustar até seres poderosos como o Doutor Estranho e Surfista Prateado, que serve de anunciador da destruição que acompanha Thanos.

A complexidade maior do texto certamente é a historia de amor genocida e não correspondida entre Thanos e a Morte, uma vez que o titã quer matar para saciar a fome de sua amada, mas se torna tão poderoso que ela se enxerga inferior, portanto o rejeita. Nem a idolatria empregada pelo antagonista o salva do orgulho ferido de sua pretendente, pondo-o em um lugar de rejeição que ele não consegue aceitar. Essa romance reúne elementos espirituais e metafísicos tem conseqüências amargas para toda a vida inteligente que percorre o universo, e causa tremores em muitos lugares, inclusive na Terra, onde os que sobreviveram, tentam continuar assim, alguns até se unindo, apesar das claras diferenças ideológicas entre eles. Em determinado momento, Thanos vê à sua frente quatro heróis entre os mais poderosos da Terra, Thor, Homem de Ferro, Namor e Cavaleiro de Fogo, e ele os aguarda sorrindo. Esse pequeno gesto revela de maneira patente a psicopatia do personagem.

Pérez desenhou quadros muito profundos e repleto de heróis até a edição três, e depois foi seguido por Lim. Em meio a isso, se revela o ardil de Mefisto, que faz Thanos reduzir seus poderes, para derrotar os heróis com mais dificuldade a fim de tentar conquistar a Morte novamente. Esse plano faz Mefisto se assemelhar muito as estratégias da antiga serpente, o diabo bíblico.

Nesta parte, em que os heróis terrestres enfrentam Thanos, acontece um embate incomum, em que o Capitão America diz que não é bom em brincadeiras, ao passo que o titã louco completa a frase, afirmando que também não é bom em ataques cósmicos. O soldado prova seu valor, afirmando que enquanto houver ao menos um deles de pé, a vitória de Thanos não será plena, e essa máxima percorre a humanidade como um todo, uma vez que é um resumo da resistência à opressão de coisas terrenas, sendo levada a um patamar cósmico.

Os momentos finais reservam cenas surpreendentes, como uma virada no jogo de xadrez que Thanos antes comandava, basicamente perdendo por preciosismo. Os fatos que ocorrem a partir daí fomentam a teoria de que o acaso influi no destino dos homens e das entidades galáticas, e a participação de Adam Warlock, que com o tempo foi ganhando cada vez mais importância e espaço, finalmente tem seu ápice, tomando para si a manopla do infinito e o destino da eternidade e demais aspectos da vida. O final contem um epílogo, que mostra Thanos aposentado e sossegado, e de certa forma, se estabelece uma conversa bastante adulta, mais madura do que todo o certame visto em Desafio Infinito, que por si só, já era uma historia muito bem construída, que balanceia bem um ritmo aventureiro cósmico e uma discussão filosófica inteligente para algo dentro dos quadrinhos mainstream.

Compre: Desafio Infinito.

Acompanhe-nos pelo Twitter e Instagram, curta a fanpage Vortex Cultural no Facebook, e participe das discussões no nosso grupo no Facebook.