Resenha | Zagor: Edição Especial em Cores Nº 1

A criação da dupla de artistas Guido Nolitta e Gallieno Ferri, um marco das HQ’s italianas, é um desses personagens que impressiona não ter a mesma popularidade no Brasil de outras figuras icônicas dos quadrinhos, como Popeye, Mutts e Constantine. Mesmo assim, o herói Zagor tem espaço assegurado no imaginário popular dos leitores mais interessados nas grandes aventuras que marcam épocas e atravessam gerações através de um brilho literário característico, e uma qualidade gráfica imbatível. Zagor é Zorro sem capa, nem máscara, e trocou o chicote pela sua machadinha desde que aprendeu a se virar no mundo, com a ajuda de inusitadas amizades. Zagor é o andarilho que escolheu o lado dos “bonzinhos”, e numa realidade cheia de armadilhas para qualquer homem onde o maniqueísmo, tão típico dos gibis, não tem vez.

Criado numa época em que já existiam faroestes demais dominando as publicações do tipo, Nolitta e Ferri se viram na missão de bolar um personagem que transitasse, livre, entre os gêneros da ficção menos óbvios em um contexto clássico de bang-bang americano. Assim, a floresta de Darkwood é palco para arcos narrativos muito além de problemas com dinheiro, duelos armados e cavalgadas ao pôr do sol – clichês já batidos desde os anos 60. É notável quanto os artistas se empenham em expandir o drama, o suspense, a comédia voluntária (ou não) e até mesmo o terror humano que o herói Zagor encontra no caminho, desde sua infância, como nos é apresentado neste primeiro volume da Editora Mythos, no Brasil. A Origem de Zagor nos faz conhecer as raízes de um garoto deixado órfão na mais comum das noites por um padre, um homem recluso e enigmático que catequisa nativos indígenas, terminantemente selvagens, para conseguir com brutalidade atingir seus próprios interesses mesquinhos, e mundanos.

Salvo pelos seus pais, os mártires da ira sem explicação do padre, o garoto é amparado e a ele ensinado truques de sobrevivência por Wandering Fitzy, um nômade de bom coração que viria a ser seu mentor, superando juntos vários desafios. Por toda sua adolescência, o menino visa combater a tragédia que abateu sua família, mesmo sabendo que Wandering, seu fiel companheiro, não concorda nem um pouco com seu instinto inquietante de vingança contra quem alterou seu destino, para sempre. Mas será que vale a pena esse objetivo de vida, perseguir uma dívida de sangue até a morte se necessário para que as lágrimas que nunca param de cair sejam, por fim, creditadas? Ao se tornar o herói Zagor, rápido como um raio e mestre da vida na floresta, o homem percebe que essa sede de punição ao padre e sua tribo o levará, cedo ou tarde, a ter seu coração envenenado. Motivos então não faltam para isso acontecer, mas os autores tomam cuidado para garantir o verdadeiro porquê de Zagor merecer ser considerado um legítimo herói: ele, de fato, escolhe o lado da virtude.

Mesmo assim, A Origem de Zagor peca em transmitir uma mensagem de que os povos indígenas são ignorantes, e precisam ser doutrinados, como se isso fosse uma mera consequência da ganância do homem branco em dominá-los em seu próprio habitat. O quadrinho termina justamente exaltando o poder de Zagor, já como uma figura louvável e guardião da mítica (e super perigosa) floresta de Darkwood, sobre aqueles que vivem em suas regiões pacificamente, e sempre tem suas vidas afetadas de algum modo por forasteiros imperiosos. Infelizmente, a história acaba por transformar Zagor numa espécie de redenção ambulante e com boas intenções aos inúmeros males do homem branco para com as outras raças não-dominantes da Terra, mas nada que tire o charme estético de uma publicação com todo o estilo gráfico dos anos 60, bastante expressivo e adorável. A criação máxima de Nolitta e Ferri continua viva, e agora, acessível a uma nova geração de leitores a se deleitar e interpretar essas aventuras atemporais.

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