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Resenha | Batman e Filho

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Em sua estreia no título mensal do Morcego, Grant Morrison optou por uma breve história em quatro partes, seguindo um recurso tradicional de suas obras: o resgate do passado por meio de releituras contemporâneas ou da reintrodução de personagens. Batman e Filho, desenhado por Andy Kubert, apresenta um novo herdeiro ao manto do morcego. Diferentemente dos parceiros e filhos adotivos de Bruce Wayne, este nasceu de noites de amor com Talia Al Ghul e, por muito tempo  desde O Filho do Demônio, de 1989 –, permaneceu fora da cronologia.

A história de Damien está inserida logo após os eventos de Crise Infinita e o salto temporal de um ano do Universo DC. É o segundo arco de retorno da revista Batman, depois do primeiro, escrito por James Robison, no qual apresenta a volta de Harvey Dent como Duas Caras. Nesta nova fase do herói, é perceptível a tentativa de reintroduzir os vilões clássicos da personagem, tanto neste primeiro arco como nas revistas Detective Comics, cujos roteiros assinados por Paul Dini  situam histórias fechadas de 25 páginas abordando um vilão a cada edição.

Refletindo o desfecho da Crise Infinita, em que os grandes super-heróis ficam fora de ação por um ano – espaço justificado para a megassaga 52, que tem Grant Morrison como um dos quatro roteiristas –, Batman voltou com energia total e conseguiu erradicar boa parte do crime em Gotham. Durante seu ano sabático – visto na megassaga –, o Morcego refez a trilha inicial de sua formação como herói e, entre descobertas e meditações, novamente encontrou o equilíbrio, uma força demonstrada ao combater o crime com afinco.

A primeira página da trama apresenta um Comissário Gordon enlouquecido com um novo gás do Coringa e com um Batman falso tentando combater o vilão. Após levar um tiro deste falso Batman, o verdadeiro cavaleiro surge e deixa o Palhaço do Crime nas mãos dos policiais. Neste resgate interior de seu equilíbrio, Bruce Wayne decide dedicar um tempo como bon vivant e parte a Londres para visitar uma exposição artística, interrompida por uma horda de capanga que utiliza o soro do Morcego Humano do Dr. Robert Kirkland Langstrom. No meio da luta, é apresentado ao seu filho por Talia.

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Morrison parece mais preocupado em inserir um personagem, que pode render no futuro boas histórias, do que realizar uma adequada introdução ao universo do Morcego. Normalmente, quando um novo roteirista assina uma revista, há a natural fundamentação de parâmetros para tramas que virão; o autor utiliza este recurso com Damian e o Coringa aprisionado. Mas, com boa execução em metade da história, a outra parte falha e torna-se apressada no final, com um dos recursos mais bobos utilizados por narrativas de qualquer estilo: uma explosão em que bandidos desaparecem, resultando em um desfecho inacabado. Em linhas gerais, também nota-se a intenção de fugir levemente do realismo noturno da personagem, dando maior dimensão ao seu arsenal como super-herói: Batman e Damian viajam em um foguete e a persona de Wayne parece mais crítica e cômica nas falas.

O encadernado lançado pela Editora Panini apresenta este primeiro arco (publicado originalmente em Batman #655 a #658 e, no Brasil, Batman nº 58 a 61) e mais três histórias posteriores, lançadas após uma história dividida em quatro partes intitulada Grotesco. Em O Palhaço à Meia-Noite, Morrison demonstra sua loucura característica ao apresentar um conto dentro da revista. Há pequenas ilustrações irregulares de John Van Fleet, mas o destaque é o conto literário sobre o Morcego e seu arqui-inimigo. É inegável a vontade do roteirista em quebrar paradigmas. Imagine o choque do público ao abrir a revista à procura de uma costumeira história em quadrinhos e se deparar com um conto que flui de maneira muito diferente da de uma obra desenhada. No conto, mesmo preso no Arkham, Coringa arquiteta um plano para matar sua cadeia de contatos. Uma narrativa muito bem delineada que depende da inventividade do leitor devido às metáforas visuais. Além disso, a trama traz um gancho que envolve o Palhaço do Crime e Arlequina.

As três histórias seguintes compõem um mesmo enredo. Em Os Três Fantasmas de Batman, Bruce Wayne ainda está viajando quando recebe a informação de que há uma ameaça em Gotham City, e o responsável por matar policiais é visto trajando um manto híbrido composto pelos uniformes do Morcego e do vilão Bane. O título inegavelmente cita Charles Dickens e os três espíritos do Natal que visitam o personagem principal do livro Um Conto de Natal. Os fantasmas de Bruce Wayne são elementos traumáticos de sua vida. O primeiro deles apresenta-se na primeira parte de Batman e Filho e é retomado nesta aventura: um Batman que utiliza armas de fogo para matar, símbolo que não só representa a morte de seus pais, mas também a mudança da filosofia da personagem, a de nunca utilizar armas fatais. Em seguida, o policial truculento com o uniforme meio Batman meio Bane dialoga com A Queda do Morcego. A primeira parte termina com uma cena semelhante, com Batman agonizando no chão após levar um chute nas costas. Em Casos Inexplicáveis, um Wayne alucinado e acamado vive um pesadelo e menciona os casos não solucionados durante sua carreira. Trata-se de outra retomada do roteirista a uma série de histórias antigas do Batman que não se encaixam mais em sua cronologia por serem diferentes demais do habitual. Tais narrativas foram a base para compor A Luva Negra. Mais um mistério que Morrison deixa para os fãs (um compilado com os casos citados também foram lançados pela editora).

Por fim, Belém é uma história sobre um futuro apocalíptico. Na edição original, foi publicada no número 666 de Batman e apresenta Damian assumindo o manto do pai, modificando a filosofia de Batman ao tornar-se um herói que mata os vilões, elemento que evidencia o terceiro temor do Morcego, o de um futuro em que estará morto e seus sucessores não seguirão a base moral rígida de sua carreira. Este argumento será utilizado em referências futuras, demonstrando que, como sempre, a composição de uma história de Grant Morrison nunca possui o objetivo de ser uma mera leitura, mas também de um jogo de pistas e inferências que somente o bom leitor poderá elucidá-las por completo.

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Thiago Augusto Corrêa

Apreciador de cinema, literatura, quadrinhos e música. Formado em Letras, escritor e metido a sabichão.
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