Review | Game of Thrones – 2ª Temporada

O inverno ainda não chegou, mas não tem problema, pois mesmo assim a recém concluída segunda temporada de Game of Thrones manteve o alto nível da estréia no ano passado e consolidou a série como uma das melhores da atualidade (só não é A melhor porque existe Spartacus). Adaptando o segundo livro da saga, A Fúria dos Reis, mas mantendo o nome simplesmente por questões de marca, a HBO mais uma vez esbanjou qualidade e cuidado em todos os elementos da produção. Direção sempre impecável, figurinos e cenários, muitos deles reais, mais uma vez dignos de blockbusters cinematográficos, e atuações se não brilhantes, todas competentes.

Até mesmo nos roteiros, aspecto mais discutível e complexo (principalmente pra quem leu os livros), a emissora soube trabalhar muito bem. Essa temporada trouxe muito mais mudanças do que a anterior, todas ainda justificáveis pelas limitações de orçamento e duração dos episódios. Em muitos momentos, não deu pra evitar uma sensação de estar vendo um resumão, ultra rápido e um tanto for dummies, do livro. Mas o mais importante é que se manteve uma grande fidelidade, com as alterações levando a trama pra onde ela precisa ir, sem uma preocupação babaca com “originalidade” desviando a história pra caminhos muito menos interessantes. Aprende, The Walking Dead!

Em linhas gerais, a temporada foi menos impactante que a passada. Mas nem poderia ser diferente, pois o segundo livro é inferior ao primeiro. George R. R. Martin tem um problema sério com os livros pares, fato que se confirma de vez em O Festim dos Corvos. Mas isso é assunto pro futuro. Por enquanto, uma análise dos núcleos desse ano 2, com evidentes SPOILERS.

Em Porto Real, o protagonista indiscutível (ao menos no livro) Tyrion esteve por cima da carne seca. Enviado pelo pai, o fodão-mor Lorde Tywin, para ser a Mão do Rei, o Duende teve que se virar pra organizar um pouco as coisas. Entre o Rei mais imbecil, despreparado e leite com pêra que os Sete Reinos já viram, e sua mãe ainda mais tola e inútil do que no livro, tarefa ingrata. Como tempo urge, pouco se viu das várias reuniões do conselho onde questões gerais do reino são debatidas. O foco foi mesmo em gerenciar a cidade e os preparativos pro ataque iminente de Stannis. Peter Dinklage mais uma vez deu show em todas as cenas que apareceu.

Também na capital, a personagem mais insuportável, insossa e sansa: Sonsa. Ah, vocês entenderam. Problema sério aqui: se no livro a utilidade dela é basicamente termos a visão do que acontece neste núcleo, na série isso acaba sendo desnecessário. Então uma personagem já fraquíssima se enfraqueceu ainda mais. Não deu nem pra sacar por que ela insistiu na atitude besta de “eu amo Joffrey e está tudo bem”, isso no livro fica mais bem explicado. Sansa não é esperta e ativa como a irmã, pois engoliu toda educação de lady que lhe foi passada. A cortesia é, então, sua única arma pra sobreviver naquele ninho de cobras.

Falando na Arya, ela é uma das personagens que chamo de “pé na estrada”. Em todos os livros, sempre tem alguém viajando pelo reino, a utilidade é mostrar os efeitos da guerra por todos os cantos. Mas esta storyline sofreu bastante com os cortes e aceleradas. Já de início, a batalha em que Yoren morre (que no livro é um mini-cerco a um castelo) teve sua grandiosidade apagada pra um simples ataque noturno na floresta. Depois, em Harrenhall, também pouco se trabalhou na crueldade com que as tropas Lannister agiram contra as aldeias da região dos rios, e menos ainda se mencionou Beric Dondarrion e a Irmandade. As várias interações entre a menina e Tywin (inexistentes no livro), mesmo que tenham rendido cenas interessantes, geraram muita expectativa que inevitavelmente resultou em nada de nada. Por outro lado, tudo relacionado a Jaqen H’ghar atendeu as expectativas, sendo a melhor coisa desta subtrama.

Ainda nos Stark, Bran pouco apareceu, como era previsto. Entre ser o lordezinho de Winterfell e uma leve introdução aos Sonhos de Lobo, aspecto mais interessante desse personagem, não havia muito pra onde ir com ele ainda. Sua participação será mais ativa na próxima temporada. Catelyn, outra da categoria “pé na estrada”, no início serviu pra vermos a corte de Renly Baratheon, um cara que honra o símbolo da sua Casa. Mas como ele acaba morrendo logo de cara (única morte relevante da temporada, e eu avisei que tinha spoiler), essa parte serve mesmo pra apresentar/situar personagens que serão explorados mais a frente, como Margaery e Loras Tyrell, além de Brienne de Tarth.

Esta última, aliás, vai protagonizar uma das partes mais surpreendentemente legais da próxima temporada, ao lado de Jaime Lannister. Pois Catelyn, na sua dor mãe, acaba libertando o Regicida pra tentar reaver as filhas. Esse plot acabou sendo antecipado, o que foi uma boa, pois assim vimos mais de Jaime. Quem pensava (como eu) que ele era só um vilãozinho vazio e unidimensional, já começou e ainda vai se surpreender muito. Na  minha opinião, é com ele que Martin mais se revela MESTRE (ou meistre, hehehe) no quesito desenvolvimento de personagens.

Voltando a Catelyn, no livro é somente através dela que vemos Robb, e na série sabiamente o Rei do Norte assume o centro das atenções em seu próprio núcleo. Não pra reclamar das batalhas não serem mostrada, pois no livro é do mesmo jeito. Porém, pecou-se em não explorar praticamente nada dos conflitos internos das tropas nortenhas, dedicando este plot quase que exclusivamente ao romance. Com uma personagem, que nos livros, é OUTRA. Mas o objetivo disso permaneceu o mesmo, fazer o Jovem Lobo trair a promessa feita aos Frey, o que trará conseqüências terríveis.

Um personagem que teve muito mais destaque do que o esperado foi Theon Greyjoy. E isso acabou sendo ótimo, pois todo o núcleo das Ilhas de Ferro ficou muito bem caracterizado. Os caras são os vikings de Westeros, pô! Theon foi mais humanizado, sim, mas o que muitos encararam como uma descaracterização, prefiro enxergar como um enriquecimento da história. E o ator esteve muito bem ao retratar um merdinha que se acha o Senhor Fodão.

Por outro lado, Davos, um de meus personagens preferidos, teve sua importância diminuída. Se no livro ele é a única visão que temos da corte de Stannis, a série resolveu simplificar, focando em Stannis e Melisandre (em cenas que Davos não estava presente) e explicitando de vez coisas que o Cavaleiro das Cebolas só podia suspeitar. A Mulher Vermelha ficou muito bem caracterizada, méritos inclusive pra atriz, mas foi uma pena ver pouco da interessante relação de respeito mútuo entre Davos e seu Senhor.

Além da Muralha, Jon Snow teve sua subtrama retratada com bastante fidelidade. Sem muito a discutir aqui, pois foi tudo uma grande preparação pra próxima temporada, quando o bicho vai pegar gloriosamente nesse núcleo. Jon é sem dúvida um dos personagens mais cativantes nos livros, pois sua jornada (do herói) é bastante movimentada e épica. Pena que na série, a cara de bunda do ator acabe comprometendo um pouco. Há que se destacar aqui, a fotografia fantástica de todas as cenas, filmadas na Islândia.

Por fim, Daenerys e seus mini-dragões. Uma coisa que me divertia muito na temporada passada era ver as pessoas comentando e se preocupando com detalhes da cultura dothraki. Agora acho que ficou claro pra todo mundo que nada daquilo importava de PORRA NENHUMA, pois o foco sempre foi na Mãe dos Dragões. Ela continua sua evolução, percebendo que não é por ser a legítima herdeira do Trono de Ferro que alguém vai dar mínima pra ela. Principalmente do outro lado do Mar Estreito, na rica cidade de Qarth. Seu grande momento, o final na Casa dos Imortais, foi um tanto decepcionante. Tudo bem que essa passagem do livro era inadaptável (pra quem não sabe, é uma série de visões, uma mais doida dorgas mano do que a outra), mas creio que simplificaram DEMAIS as coisas nessa parte. Enfim, a storyline de Dany é outra que vai ser incrível na próxima temporada.

As expectativas pro ano 3 da série são enormes. A saga chega ao seu melhor momento, o fodaralhaço A Tormenta de Espadas. Os produtores já declararam que nem todo o livro será mostrado na terceira temporada, decisão mais do que acertada, afinas são quase 900 páginas de pura epicidade, onde tudo é importante e não há enrolação. A adaptação fica mais difícil do que nunca, mas a HBO já provou estar à altura do desafio. Só nos resta aguardar e confiar.

PS: George R. R. Martin, seu velho maldito, faça o favor de parar de ficar roteirizando episódios pra série e vai logo terminar os dois livros que faltam, por gentileza.

Texto de autoria de Jackson Good.