20 Filmes sobre a Temática Racial

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Neste 20 de novembro, Consciência Negra SIM. Por que não?

O racismo é uma ferida aberta, permanece impregnado em nossa sociedade, e, ainda hoje, é bastante comum nos depararmos com pessoas próximas, instituições públicas ou privadas e a própria imprensa nos fazendo crer que a melhor maneira de acabar com a desigualdade racial é, pasmem, deixarmos de falar sobre isso, nos fazendo crer em uma ideia falsa de que já vivemos em igualdade. Não. O dia da Consciência Negra está longe de ser um dia comemorativo, mas serve para nos lembrarmos da luta dos negros ontem e hoje.

Deixar de discutir e denunciar nunca é, nunca foi e nem nunca será uma alternativa para qualquer problema, principalmente quando esses problemas estão enraizados em nossa sociedade há séculos. Enquanto isso não for uma agenda frequente do Estado e da mídia, ainda teremos o isolacionismo forçado, dificuldade de acesso ao mercado de trabalho e universidades, o preconceito constante, e claro, o número crescente de homicídios de negros no país. Em São Paulo, por exemplo, a mortalidade da população negra é três vezes maior que a dos brancos. Mas isso não é novidade para a periferia: sua população sabe disso há muito tempo.

E para que não nos esqueçamos do que representa o dia de hoje e para pensarmos duas vezes antes de publicarmos qualquer bobagem que seja contrária ao dia da consciência negra, dando voz a racistas que questionam a data ou pedindo o dia da consciência humana, faço, em conjunto com outros amigos do site, uma seleção de filmes que têm como tema central a questão racial. Que a cultura não seja mais um mecanismo que provoque a camuflagem de formas de racismo em nossa sociedade, mas sim mais um meio que nos ajude a vencer o preconceito ao qual fomos condicionados em boa parte de nossas vidas, para que possamos ao menos compreender a agressão que uma companheira sofre, o racismo na carne negra que não é minha, o preconceito por uma orientação sexual diferente da que possuo. Quem sabe assim vençamos o velho homem e o desconstruamos rumo a uma sociedade mais justa, consciente e igualitária.

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Malcolm X (Spike Lee, 1992) – Por Flávio Vieira
Ao lado de Martin Luther King, Malcolm X teve papel fundamental na defesa dos direitos civis dos negros norte-americanos. Sua atuação, como um contraponto ao discurso pacifista de King, é histórica. Sua evolução como ator político foi fundamental para propagar o discurso de luta da comunidade negra contra o separatismo existente na época. Spike Lee sabe bem disso e fez um ótimo trabalho em demonstrar as nuances ideológicas, e algumas vezes controversas, existentes ao longo da vida de Malcolm X. Acima de tudo, Lee fez um filme poderoso sobre identidade, força e ideias.

Mississipi em Chamas (Alan Parker, 1988) – Por Fábio Candioto
Trazendo à tona o velho conflito racial do sul dos EUA, este clássico dirigido por Alan Parker adota como discurso a violência das relações raciais justamente em um dos estados onde mais ocorreram mortes e linchamentos de negros por membros de organizações como a Ku Klux Klan. Dois agentes do FBI são levados à região para investigar o desaparecimento de três jovens ativistas pró-integração. Um agente é jovem e idealista, e o outro, mais experiente e conhecedor da região, sabe dialogar com o silêncio das pessoas por trás da brutalidade causada pelo ódio racial. O maior mérito do filme é sair da discussão do negro urbano dos EUA e voltar a discutir a problemática do sul, local em que a questão racial ainda é mal enfrentada. Parker escancara a hipocrisia institucional e mostra todo o sangue e corpos que foram por décadas escondidos debaixo do tapete dos casarões dos EUA.

Tempo de Matar (Joel Schummacher, 1996) – Por Thiago Augusto
O advogado John Grisham estreou na literatura com este thriller, adaptado ao cinema por Joel Schumacher. Tempo de Matar aborda o estupro de uma criança negra cometida por dois brancos e o assassinato consequente destes homens pelo pai da garota. Ambientado no Missisipi, um dos estados que viveu a segregação racial e a presença da Ku Klux Klan, a obra lança um olhar sobre a desigualdade da Justiça e um frágil sistema que faz da cor motivação para um julgamento mais ou menos apurado. Matthew McConaughey demonstrava uma promissora carreira – que permaneceria anos sem destaque por conta de filmes ruins – como o advogado que luta a favor do pai da garota. O destaque vai para uma das cenas finais, em que nas alegações finais o advogado explicita a incongruência da Justiça.

Faça a Coisa Certa (Spike Lee, 1989) – Por Doug Olive
É como se Chaves encontrasse Todo Mundo Odeia o Chris. Contudo, não é sátira do sofrimento de um povo esquecido sob uma constante manutenção entre pobre e rico, ou preto e branco, em respectivo. Spike Lee, em seu único grande filme, pega na mão invisível que faz uma classe se sentir superior à outra e dança a ciranda numa roda de identidade, e personalidade atípicas até então no cinema underground norte-americano, em ascensão desde os anos 60. Os pudores foram little by little para a gaveta em prol de um todo, ou seja, de suas partes com ou sem distinções entre si, sejam elas puritanas ou inclusivas ao quadro geral, dividido pela tal da ‘‘mão invisível”. Faça a Coisa Certa é o bulinado rindo do bullying; é o certo, não?

A Outra História Americana (Tony Kaye, 1998) – Por Filipe Pereira
O filme de Tony Kaye toca em pontos cruciais da “guerra racial”, exibindo os grupos neonazistas que habitam os EUA por meio do olhar de dois irmãos, Derek Vinyard (Edward Norton), que é preso logo no início do filme após espancar um negro, e o caçula Danny (Edward Furlong), que vai aos poucos fazendo a mesma trajetória do primogênito. O roteiro completa-se mostrando uma redenção para Derek, sem fazer concessões politicamente corretas, nem subestimando seu espectador. Aos poucos, o antigo skinhead percebe seus pecados morais, e a tatuagem de suástica em sua pele branca subsiste para relembrá-lo de seus erros no pretérito, quando não pensava de modo claro e quando praticava nos negros o extermínio, como seus “antepassados” fizeram com os judeus. As cenas violentas resgataram um cinema visceral, poucas vezes visto nos idos dos anos 80.

Fantasmas do Passado (Rob Reiner, 1996) – Por Fábio Candioto
Em 1963, foi assassinado em sua casa o ativista negro Medger Evers, e todos sabiam quem era o assassino, Byron De La Beckwith, absolvido em um julgamento controverso e cheio de falhas em que era clara a vontade de se deixar tudo como estava. Fantasmas do Passado contra a história do jovem promotor Bobby DeLaughter, que, nos anos 80, reabriu o caso e lutou por anos até conseguir evidências para colocar o assassino de novo no banco dos réus e condená-lo. Dentro da febre dos filmes de tribunal dos anos 90, a produção dirigida por Rob Reiner é interessante por mostrar as complicadas relações familiares e políticas das famílias brancas do Mississipi, e como quem foge minimamente do padrão estabelecido como “justiça” na região pode sofrer consequências pessoais desagradáveis. Mesmo com alguns problemas de ritmo e certo exagero no tom de salvador da pátria adotado pelo promotor, vale a conferida.

Conduzindo Miss Daisy (Bruce Beresford, 1989) – Por Thiago Augusto
O choque social, cultural e racial é o fio condutor desta bonita obra sobre amizade. Um exemplo da força transformadora das relações e de como certas pessoas possuem ideias preconcebidas com base em noções culturais desniveladas. A judia Daisy Werthan, incomodada com o novo motorista negro, aos poucos, destrói suas barreiras preconceituosas dando vazão a uma relação afetuosa com o motorista que, contrariando suas impressões inicias, era um dos homens mais íntegros que ela conhecera. A candura da trama não impede a demonstração de racismo da sociedade americana, felizmente com um final pacífico e compreensivo.

Distrito 9 (Neil Blomkamp, 2009) – Por Doug Olive
O cinema como produto do meio, produto de linguagem simbólica, ponte para expoentes interpretativos à mercê do plural. Distrito 9 estupra qualquer conceito ufológico para pender na escala social do conflito entre espécies – e interesses inerentes a elas. Um bando de aliens presos numa favela e vigiados por brancos. Um tanto didático nas pretensões, mas direto na ferida da desigualdade entre os povos, sem deixar de ser entretenimento de primeira qualidade. Só isso. Se tirar os efeitos especiais e a captura de performance, vira Brasil, Brasilândia e Rocinha: um bando de alienígenas vigiados.

O Mordomo Da Casa Branca (Lee Daniels, 2013) – Por Filipe Pereira
Lee Daniels é um diretor negro que já tinha feito uma história panfletária em Preciosa. Com o relato real de Cecil Gaines, negro que foi mordomo da casa presidencial estadunidense por décadas, O Mordomo Da Casa Branca faz um apanhado da luta por direitos civis dos negros num drama que envolve duas gerações, a do pai, interpretado por Forest Whitaker, e seu primogênito Louis Gaines, interpretado prodigiosamente por David Oyelowo. Apesar de bastante didático, o drama de quase três horas percorre toda a política dos mandatários dos EUA e como cada um deles lidou com questões raciais, além de contar com um elenco majoritariamente negro, composto por Mariah Carey, Oprah Winfrey, Terrence Howard etc. Apesar do panfletarismo, a película apresenta um belo ciclo de reflexão, com a evolução de Cecil, que deixa de ser um submisso “negro de casa” para tornar-se um idoso ativista.

Invictus (Clint Eastwood, 2009) – Por Fábio Candioto
A figura de Nelson Mandela, em seus anos finais de vida, se transformou em referência mundial no combate à fome e ao racismo e na promoção da paz racial pelo planeta. Clint Eastwood adaptou aos cinemas em 2009 uma fascinante história de Mandela, então recém-eleito presidente da África do Sul, e sua tentativa de evitar uma guerra civil entre uma parte da população negra, guardando o rancor pelas décadas de sofrimento dentro do apartheid, e parte da população branca, com medo de perder não só seus privilégios, como também suas vidas. Ao utilizar o esporte como linguagem universal e ao tentar transformar um time de rugby historicamente identificado com os brancos, ressignificando-o como símbolo do novo país, Mandela mostra uma habilidade política sem igual, e consegue manter o país unido usando essa tática, tendo como aliado o capitão do time, que incrivelmente vence o campeonato mundial do esporte em 1995. Por mais que, após o seu governo, a desigualdade social entre brancos e negros tenha permanecido praticamente a mesma, vale o registro.

Hurricane – O Furação (Norman Jewison, 1999) – Por Thiago Augusto
Um homem negro ronda as redondezas perto de um crime e, certamente, é o culpado. A história do boxeador Rubin Carter, preso injustamente por um crime que não cometeu, arrebatou parte da população americana revoltosa, com direito a uma grande canção composta por Bob Dylan. Durante anos, Carter lutou por sua liberdade contra uma acusação de triplo assassinato, cujo principal argumento criminal era sua cor. A obra é um relato contra um negro, dentre os diversos que são presos injustamente.

Cronicamente Inviável (Sérgio Bianchi, 2000) – Por Doug Olive
Uma aula de como fragmentar o tema racista e classicista em larga escala, sem frases de efeito e sem perder a notoriedade da carga concreta de compromisso com o público, nacional ou não, já que a intenção é ser universal. Como formador e observador de polêmicas racistas ou de classe, Cronicamente Inviável é um filme indispensável na cinematografia brasileira, de inúmeras cenas síntese, e uma precisão analítica desconfortável apenas ao cidadão preso a princípios difamatórios.

Branco Sai. Preto Fica (Adirley Queirós, 2014) – Por Filipe Pereira
Exibido no Brasil apenas em festivais, com estreia prevista para o início de 2015, a ficção científica de cunho racial Branco Sai, Preto Fica é um exercício de criatividade e de cinema de guerrilha do brasiliense Adirley Queiroz, que denuncia a segregação ocorrida no Brasil, usando a diferença em Brasília e Ceilândia – uma das cidades-satélites do Distrito Federal – como cenário para uma versão alternativa do Apocalipse. Protagonizado por cidadãos comuns, quase todos negros, o filme percorre a periferia da Capital, mostrando os candangos em situações insalubres, lutando para ganhar seu espaço ao sol, lutando para viver de arte, num longa metalinguístico ao extremo. A parcela de ficção científica é dedicada a um personagem extraterrestre, que tem a clara missão de punir os que agridem os membros da raça negra no Brasil.

12 Anos de Escravidão (Steve McQueen, 2013) – Por Fábio Candioto
Baseado na história real de Solomon Northup, um negro livre e educado no norte dos EUA que foi sequestrado e escravizado por 12 anos, o filme, dirigido pelo britânico Steve McQueen e vencedor da principal categoria do Oscar de 2014, suscitou vários debates sobre o tema da escravidão nos EUA, que, assim como no Brasil, é pouco discutida de forma substancial na sociedade. Ao optar por uma narrativa que foca o sofrimento físico e mental causado pelo cativeiro, McQueen usa e abusa da violência como forma de mostrar o lado mais cruel da escravidão, sem se preocupar em analisar os tons de cinza dentro daquelas relações, transformando o filme mais em um relato partindo de uma perspectiva do que uma análise histórica em si, porém tendo também sua imensa importância para contribuir ao não esquecimento da escravidão e suas marcas deixadas na sociedade americana.

Duelo de Titãs (Boaz Yakin, 2000) – Por Thiago Augusto
Denzel Washington estrela outra trama sobre o racismo. Dessa vez, como produção da Disney, uma narrativa familiar que, mesmo sem o apelo de outras grandes obras do tema, universaliza uma história para todos os públicos, demonstrando o passado preconceituoso da América. Ao abordar as tensões raciais em uma escola da Virgínia, que não aceitou inicialmente um treinador negro para o time de futebol, o filme traz um bom equilíbrio entre a história submersa do preconceito, o viés esportivo da obra e uma mensagem ampla que aproxima um público mais novo de uma realidade visível no país.

Compasso de Espera (Antunes Filho, 1973) – Por Doug Olive
Ressaca social filmada como o rito de uma consciência e inteligência intrínsecas à História. A violenta cena de intolerância diante do casal preto e branco, na praia, em plena luz do dia e das carícias do casal na areia, por parte de pescadores revoltados com a visão, pode nos revoltar e com certeza nos estacar a impressão claustrofóbica que o negro muitas vezes sente num país ironicamente diversificado em raça, credo, tudo. Ao mesmo tempo, é o negro se esforçando para não aceitar o preconceito que o depreda, em todos os sentidos, enquanto se apaixona, sem poder fazer nada quanto ao coração, por quem pertence à raça que o oprime. Grande filme.

Banzé No Oeste (Mel Brooks, 1974) – Por Filipe Pereira
Diretor de sátiras, Mel Brooks gostava de tomar a base de um assunto para desconstruí-lo e destratá-lo por completo. Depois de Banzé na Rússia, seu próximo passo foi parodiar os westerns clássicos, verificando os filmes revisionistas de John Ford. Enquanto Sergio Leone levava Clint e Bronson para a Itália, filmando seus Bang Bang à Italiana, Brooks subvertia a hierarquia do Velho Oeste. Após a morte do xerife local, Jim (Gene Wilder) tenta a todo custo convencer o governador a dar o cargo a Bart (Cleavon Little), um negro que acabara de chegar à cidade. Até alcançar o almejado título, Bart sofre todo tipo de impropério, com piadas politicamente incorretas em relação a sua pele e cabelo, elemento condizente com o cinema de Brooks, que usa a predicação negativa para evidenciar a hipocrisia dos anos 70, momento em que a sociedade norte-americana teimava em afirmar que o racismo havia acabado.

Fruitvale Station – A Última Estação (Ryan Coogler, 2014) – Por Doug Olive
O subtítulo brasileiro, espertinho, já dá a deixa para a conclusão do filme, conclusão histórica, apenas, sendo que em sua abordagem não poderia definir as ambíguas visões quanto ao racismo, aqui, cru e realista como há muito não se via no cinema-espetáculo americano; com ar de filme independente, no caso, o que realmente é. Michael B. Jordan encarna o número ímpar na conta que subtrai o diferente, o inferior, o estranho, numa América totalmente desigual; a América real e amarga em seus dogmas de vidro. O resgate da memória do atentado aos direitos humanos de 2007 invoca o que ainda é visto como atemporal, e, sobretudo, invoca o julgamento do espectador feito o ‘‘cinema denúncia”, que não consegue deixar de sê-lo, ao apelar à emotividade e outros truques previsíveis, na dramatização objetiva da ignorância em que surge a maioria das adversidades desumanas.

Shaft (John Singleton, 2000) – Por Filipe Pereira
Apesar de propagar uma série de adjetivações estereotipadas, Shaft de John Singleton resgatava aos anos 2000 uma onda há muito sepultada: os blaxploitation dos anos setenta. Samuel L. Jackson faz o refilmado herói, policial, que lutava contra o racismo e contra o tráfico de drogas: dois estratagemas que cercearam muitas vidas de negros americanos. Jackson é tão heroico quando eram Robert Hooks, Richard Roundtree, Fred Williamson. O sucesso do filme favoreceu outros negros a também protagonizarem filmes de ação – juntamente ao trabalho de gente como Wesley Snipes. Apesar da pouca consistência e qualidade duvidosa, Shaft, de 2000, serviu para solidificar a figura do ator como protagonista, exibindo um personagem principal de dilemas morais, cuja pele e identidade negra preconizam qualquer estimativa.

Libertem Angela Davis (Shola Lynch, 2012) – Por Flávio Vieira
Shola Lynch retrata brilhantemente um pouco sobre a persona de Angela Davis. Revolucionária, ativista, marxista, Black Panther, defensora dos direitos humanos, Davis em toda sua vida foi crítica à política que se fez e se faz nos dias de hoje. Coerente aos seus ideais, Davis se junta aos Black Panther Party para lutar contra o segregacionismo existente na época (só na época?), já que não acreditava na posição integracionista proposta por Martin Luther King, como também questionava a proposta de movimentos separatistas. Contudo, com o aumento da violência contra a população negra, Davis também endurece seu discurso e reforça que a única saída se dará através da luta pelo socialismo. Suas posturas políticas e em defesa aos direitos humanos acabam levando Davis à prisão, e é sobre este episódio específico o teor do documentário aqui indicado. Lynch retrata todo o contexto social e político e acerta no ponto ao colocar o espectador em contato com as posições da ativista e o cenário externo que envolve o ocorrido. Grande filme.


Viva Zumbi!