Cinema

Crítica | A Divisão

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Produção da Downtown e da Afroreggae, A Divisão é um longa-metragem de Vicente Amorim, o mesmo diretor de Motorrad e Irmã Dulce. Seu drama se passa em 1997, usando uma estética do famigerado Favela Movie que se tornou famoso graças a expoentes como Cidade de Deus e Tropa de Elite. O filme, editado a partir da série homônima da Globoplay relembra a onda de seqüestro que acometeu o Rio de Janeiro nos anos noventa de uma maneira visceral e, aparentemente, baseada em relatos reais de quem viveu esta época.

Já no início se percebe o tamanho do maniqueísmo da obra, seja na fotografia em tons sépia – que irritam os olhos, parecendo que há areia na tela em alguns momentos – ou pela narração forçada, que se utiliza do artifício de colocar elementos de cena para justificar, no caso, com um pequeno televisor em uma das lojas a beira da praia, onde o personagem Paulo Gaspar de Bruce Gomlevsky, que é chefe das Polícias do Rio de Janeiro, discursa contra a corrupção das entidades policiais e afins, bem ao estilo de seu personagem em Polícia Federal: A Lei É Para Todos.

A amostragem da problemática da violência urbana, do tráfico e do livre acesso dos que seriam os personagens a margem da sociedade tenta soar profundo, mas esbarra não só nos problemas do texto, mas também em aspectos técnicos e visuais. Há um uso exagerado do Slow Motion, e a artificialidade vira o norte desta versão para o cinema. A tentativa de traduzir a podridão do modo de operar policial através também de elementos visuais não foge do óbvio, nem mesmo quando tenta não verbalizar. Tudo soa bobo, por se usar muitos clichês na abordagem de um tema que deveria soar sério.

Os personagens estão quase sempre suados, iluminados com tons amarelados, que fazem lembrar estágios de doença, a moral da maioria dos policias é dúbia, mas toda essa construção esbarra na total falta de complexidade do roteiro, que acha que por ter uma linguagem verbal coloquial e cheia de palavrões, faz seu drama parecer adulto. O personagens de Erom Cordeiro e Natalia Lage não parecem minimamente gente de verdade, não há tridimensionalidade, e sim arquétipos típicos de um seriado dos Estados Unidos dos anos 90, mal dublados e mal construídos.

O movimento hibrido de série e filme serem lançados de maneira concomitante não é algo novo, na época de O Auto da Compadecida isso já era comum, mas a realidade é que ao menos para A Divisão essa tradução não se fez inteligente, pois a linguagem aqui é expositiva, como é comum na televisão e não funciona no cinema. Seus pecados não o tornam tão errôneo quanto foi com Os Dez Mandamentos: O Filme, da Rede Record, que era uma novela com centenas de capítulos e se tornou um filme de duas horas, mas também há equívocos demais na tradução entre mídias.

A intenção política e ideológica de A Divisão é um bocado confusa, não se sabe se visa denunciar os desmandos e corrupção da polícia, ou deflagrar que a segurança no Rio de Janeiro é um cobertor curto, uma vez que se evidencia que após a onda de sequestros acabar os outros índices de violência em território carioca aumentaram, tampouco dá para entender se é uma crítica ao comportamento estratégico das policias ou um louvor a elas. Se o filme busca fugir do maniqueísmo, erra feio, pois boa parte de seu texto se pauta em arquétipos e tipos de pessoas, algo batido e bizarro.

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Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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