Crítica | Cassino

Foi como transferir as sensações de ‘Money’, a sexta faixa do The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, em forma de filme, uma vez que, assim como as melhores músicas dos Beatles, Bob Dylan e outros ícones, há muito a se extrair de poucos minutos carregados de vastas mensagens. Se na música a ganância, as contradições, a lógica do mundo capitalista em eterna translação em torno do seu principal valor, o dinheiro, é toda embalada pelo ritmo de guitarra, e sintetizadores, em Cassino as imagens expandem o escopo e tudo explode, do começo ao fim, na intensidade e no sangue que suja o dinheiro podre dos encardidos piratas, cujos ternos italianos e charutos cubanos parecem impecáveis sob a luz quente das suas basílicas de consumo.

A expectativa em torno de Martin Scorsese na década de 1990 era gigante. Após Os Bons Companheiros e sua absurda recepção de público, e crítica, o cineasta foi eleito o novo às na manga dos filmes policiais de Hollywood, com uma produção menos glamourizada que a de Francis Ford Coppola, nos anos 70, e muito mais atualizada a um contexto social mais desmoralizado, já no pré-anos 2000. Seus dois filmes aqui citados são coqueluches de um Cinema ‘violento’ e frontal, e que ao se banhar na sua própria truculência, mostra a face mais asquerosa e verdadeira de um mundo cão e absurdamente antiético. Cassino é ultra real, retrato de uma época, e necessita de um mise em-scène um tanto surreal para não parecer um documentário com grandes atores em conflitos barbaramente encenados. Verdadeiros gladiadores, na tela.

Já não existia mais a confiança cega na família, aquela que dava o tom nos três O Poderoso Chefão. Se o terceiro capítulo da saga dos Corleone falhou, miseravelmente, em 1990, os filmes de Scorsese brilharam porque os tempos já eram outros, mais cínicos, hipócritas, individualistas. Quando os indivíduos da sociedade do espetáculo não confiam mais uns nos outros, o próprio espetáculo precisa refletir isso da maneira mais divertida e apropriada possível, e Coppola, o saudosista, não entendeu isso. Resultado: naufragou. Scorsese já via as coisas dessa forma desde o catártico Táxi Driver, ou melhor, desde Caminhos Perigosos, seu primeiro e antigo grande filme, tendo nesse verdadeiro épico de 1995 sobre a ambição humana a consagração dessa visão um tanto pessimista, com todo o brilho, literalmente, que ela poderia vir a irradiar.

Na trama, os magnatas Sam Rothstein e Nicky Santoro são amigos de longa data, sobrevivendo no topo da cadeia alimentar de Las Vegas enquanto administram seus cassinos, verdadeiros quartéis de jogatina sob seus punhos de ferro, entre crimes e esquemas terríveis para ambos se manterem no topo – ‘se chegar aqui foi difícil, continuar é mais ainda’, seria o lema de Cassino. Robert de Niro e Joe Pesci dão mais um show de atuação, reprisando com mais pompa a alma violenta e diabólica dos gângsteres de Os Bons Companheiros, sujando novamente suas mãos – se for preciso. A desfaçatez de Sam (De Niro) impressiona, mas é a vilania de Nicky (Pesci), quase que vulgar mesmo, que mais nos assusta. Os donos da selva onde ninguém vale o que deve, e que fazem o que for preciso para se manterem no trono conquistado.

Nisso, ambos acabam se envolvendo com a perigosa femme fatale descontrolada Ginger (Sharon Stone), e veem tanto sua “amizade” como seus negócios virarem de pernas para o ar. Ginger é a desconstrução em forma de gente, sendo aqui o elemento que desestabiliza tudo por onde passa. É a peste, o furacão que tira os leões da toca, e os abate feito gatinhos. Pela primeira vez, Sam e Nicky não podem corromper seu problema, ou matá-lo e enterrá-lo no deserto de Vegas – Ginger e seu salto-alto chegaram para ficar, têm poder e são intocáveis até para os reis Midas que tocam, e comandam tudo. Não há dinheiro no mundo que controle um tornado, diz a sua presença. Stone rouba suas cenas de forma impressionante, e tanto seus embates com De Niro e Joe Pesci, quanto suas consequências, devastadoras, geram algumas das melhores e mais chocantes cenas da filmografia de Scorsese. Apenas.

Cassino apresenta o diretor no auge de sua melhor fase como realizador, ainda com muita fome e sede de Cinema, e uma intensidade gigantesca mas que não deixa o filme pesado, ou excessivo. Uma obra bárbara, com elementos muito bem reciclados de outrora no contexto geral da trama, e com um inesquecível terceiro ato, simplesmente arrebatador. Sua força está nas mensagens e na sua encenação, na ótica vivida sobre um cosmos regido por agentes de um sistema desumano, e essencialmente competitivo, e nos embates entre jogadores que almejam a mesma coisa: sucesso, para si mesmo. Num ambiente de pura jogatina, há coisas que o dinheiro não compra, e na iminência disso ser verdade, eis então o maior pesadelo dos donos do mundo.

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