[Crítica] Cinema Novo

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Misto de reverência e de registro muito necessário de acervo a respeito do cinema nacional e mundial, Cinema Novo de Eryk Rocha é um documentário bem ao estilo do filme anterior do cineasta, Campo de Jogo, que se debruça sobre seu assunto e discorre de forma lírica sem deixar a informação de lado. Filme político e certeiro, o longa foi premiado no Festival de Cannes como melhor documentário.

Rocha havia falado sobre futebol e periferia em seu filme anterior, o já citado Campo de Jogo e neste, as imagens belas captadas por si e por sua equipe, mostravam um espetáculo visual sobre o esporte bretão. Esta nova produção se assemelha muito a anterior nesse sentido ainda que sua fórmula não esteja desgastada. O método documental é quase todo baseado em imagens de arquivos e depoimentos dos próprios cineastas, realizadores, produtores e críticos da época, que louvavam a tentativa de executar uma arte sem muitos recursos e com uma linguagem que já nascia transcendental e que era prioritariamente prática para depois ganhar qualquer estudo teórico, encabeçados as elucubrações por sua vez pelos próprios, em especial Gláuber Rocha.

Apesar da linguagem hermética e poética, sem narração em off por parte de quaisquer pessoas que não estivessem envolvidas diretamente com o movimento, ainda sobra muito espaço para informação didática ainda que não seja necessariamente jornalística. É curiosa e inventiva as metodologia da história, inclusive louvando a filmografia de Humberto Mauro, dito por Gláuber e Nelson Pereira dos Santos como o marco zero do estilo ou a dita pre-historia do cinema novo.

O documentário emula demais o modo de apresentar uma narrativa sem necessitar de uma linha guia normal e ordeira. O estudo sobre as obras se foca em registrar a naturalidade e o encanto do segmento. O cinema novo tinha a pecha de não maquiar a realidade, mostrando as mazelas sociais brasileiras a luz natural e sem adereços que escondessem as rugas e chagas do povo trabalhador, especialmente o do sertão. O resultado final é inspirador, e se torna ainda mais caro e único por conseguir fazer isso somente com imagens de arquivo e uma edição estupenda e inventiva, bem a moda de fenômenos recentes como Cidadão Boilesen e Geraldinos.

Sem qualquer panfletarismo barato, Cinema Novo consegue discutir política sem apontar adversários demonizados, ainda que condene veementemente o regime militar que sepultou praticamente o estilo preconizado por Gláuber, Nelson Pereira, Paulo Cezar Saraceni, Leon Hirzman, Carlos Diegues, Ruy Guerra e tantos outros contemporâneos e que entrariam no estilo futuramente, como Arnaldo Jabor. Para eles, o maior sucesso da ditadura foi conseguir torna uma experiência cinematográfica e transcendental em algo pessoal e individualizado, mesmo com o esforço hercúleo de todos os envolvidos na época.

Ainda que a afirmação pareça catastrofista, fatalmente a sentença tem ao menos um pouco de razão, uma vez que a maioria dos exemplares da época só estão disponíveis para o público em qualidade de VHS ou até inferior, de modo que a apreciação desse material atualmente é muito difícil, no entanto o legado deixado por este secto cinematográfico influiu muito além das fronteiras brasileiras e temporais uma vez que até escolas europeias e alternativas se inspiraram no estilo, bem como a atual geração de cineastas também usa muitos dos elementos, especialmente o cinema contemplativo de Pernambuco, que usa muitos não atores, estética naturalista e abordagem não linear e normativa. Rocha consegue capturar todo o espírito do estilo, em um filme quase irrepreensível do ponto de vista artístico.