Crítica | Submersão

Win Wenders não parece mais acreditar em si mesmo. Parece ter vergonha ou certa descrença com as suas tramas também. O diretor dos espetaculares, e já considerados clássicos modernos, Paris/Texas, Buena Vista Social Club e Asas do Desejo faz, hoje em dia, o que o cinema comercial saudosista repete tão bem, ano após ano, só que em campo territorial: recicla as mesmas histórias que o consagraram, em seu modelo formoso de Cinema, mas sem novidade alguma na abordagem. Como se arrastasse para contar uma história, com atores servindo-o apenas de fantoches em mera mise em-scène esquecível e 100% dissociável a carreira do brilhante cineasta alemão que existiu. Na verdade, se está vivo, respira por aparelhos.

Wenders se consagrou pela sua coragem, propriamente dita, em mesclar gêneros ao redor de personagens sempre em constante mudança. Papeis que buscavam algo maior como se aquilo que está reservado a eles os chamasse, justo no começo de cada história. De certa forma, e com pesar afirmo, assistir a Submersão é observar a dissolução desse ímpeto, da identidade e da paixão cinematográfica de um cineasta com a arte e seu público. O diretor já parecia dar indícios a tempos dessa espécie de desilusão não-oficializada com seu ofício de uma vida inteira desde os primeiros anos do século XXI, mas foi com Tudo Vai Ficar Bem, com James Franco e Charlotte Gainsbourg, a musa de Lars Von Trier, que se deu o parecer mais forte desde os “distantes” anos 90. Filme fraquíssimo, um fantasma ocupando uma tela, um arremedo de ideia.

Assim se dá o enredo de um romance, dos mais inexpressivos dos últimos anos, entre Alicia Vikander, a recente Lara Croft do Tomb Raider de 2018, e James McAvoy, o assassino multipolar de Fragmentado. Ambos em bela sintonia, conhecem-se num hotel por acaso enquanto tentam dar as suas vidas um possível significado, mediante as suas profissões: ela, biomatemática, vive estudando a imensidão marítima, e ele, um espião inglês prestes a assumir a missão mais arriscada de sua vida: investigar uma facção terrorista que pode colocar em risco a vida na Europa inteira. História interessante, e mais ainda graças a mágica da edição, quando nos é mostrado a vida dos apaixonados no futuro. Distantes, ela agora presa num submarino no fundo do oceano, guiada pelo desconhecido, e ele pagando o preço por ter buscado o mesmo, trancafiado e sequestrado dentro de uma masmorra africana oculta.

Estaria a fé no reencontro de ambos os amantes, perante duas situações limites e claustrofóbicas ao ser humano que faz com que nos liguemos ao passado, e esperamos vivê-lo novamente, flertando com o desejo de Wenders de se reencontrar com o seu Eu magistral de outrora? Pelas imagens do realizador feitas debaixo d’água, ou em território africano, o seu olhar para documentários permanece afiado, mais interessado em ambientação que na caracterização dos seus atores. Jogados a sorte do poder de algumas boas cenas (a montagem paralela da terra para o enclausuramento do submarino com Alicia, e o diálogo que se dá nesse vai e vem temporal, é excelente), as suas interpretações (em especial a de McAvoy, provando a cada filme ser um grande ator britânico, até que, um dia, iremos de lhe chamar Sir. McAvoy), estão na tela só para nos lembrar dos bons atores que realmente são.

Submersão, ironicamente, nunca encontra a profundidade temática ou ainda filosófica que as vezes demonstra almejar. Sua longa duração, quase duas horas, estica ainda mais seu argumento principal, tornando tudo ainda mais frágil e por vezes entediante – exceto, como já citado, por algumas boas cenas que remetem ao potencial enferrujado de um grande artista. Uma pena.

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