[Crítica] Superman – O Retorno

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Após longos anos sem qualquer representação áudio visual no cinema, depois da fracassada tentativa de realizar uma nova abordagem do herói no Superman Lives pensado por Tim Burton, o projeto de reativar a saga do azulão em tela grande recairia sobre o promissor Bryan Singer, que já havia reimaginado os X-Men sob uma ótica interessante. A produção dessa vez seria de Jon Peters, que retornaria à posição que ocupou em Batman de 1989, substituindo os Salkind na empreitada de prosseguir o legado do herói.

O filme inicia-se com um recordatório sobre o fim de Krypton, fato que explicaria em parte tanto o hiato do personagem quanto a ausência de versões feitas para o cinema. Com momento posterior ao prelúdio e a abertura ao estilo da versão do Superman 1978 de Richard Donner, e a reintrodução de Lex Luthor.

Apesar de ser a afirmação não oficial, a produção de Singer somente levaria em conta os filmes produzidos por Donner, compondo assim a parte posterior a Superman II – Donner Cut. O desenrolar do roteiro de Singer, Michael Dougherty e Dan Harris mostra herói e vilão redescobrindo origens, com Clark (Brandon Routh) retornando à fazenda em Pequenópolis, como um alienígena novamente, e com Luthor descobrindo as instalações da Fortaleza da Solidão, descobrindo as origens de seu opositor.

Singer tenta equilibrar sua obra em dois pontos básicos, mostrando uma continuação, com Kal-El buscando suas origens e possíveis sobreviventes de Krypton, e claro, um filme de origem, para situar qualquer espectador desavisado, atento à questão que Stan Lee tanto gostava de citar, que toda história de herói pode ser a primeira história para alguém. A problemática maior é que este quinto volume vive neste limbo, com dificuldade de assumir uma identidade própria, já que somente na exibição do filme não fica exatamente claro o que vale ou não na cronologia, quando o conceito de reboot não era tão comum quanto nesta década.

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O ambiente do Planeta Diário prossegue muito parecido com o dos anos 1970, claro, acrescido da tecnologia que avançou nos quase 30 anos entre as versões. Outro fator semelhante é a devoção de Jimmy Olsen (Sam Hutington) a Kent, mesmo após sua ausência. O tom de comédia forçosa deixou a maioria dos núcleos resumindo-se somente aos vilões, que ainda assim não são tão necessariamente bobos quanto Hackman e seus capangas. Ainda resta a aura mágica e fantasiosa, em especial nas cenas em que a gravidade é superada, em argumento narrativo que explicita que o mundo onde Superman habita é um campo mais escapista que o comum.

Não havia na produção um compromisso de retratar a premissa de um modo que fosse explicado racionalmente, em especial levando em conta as leis da física que regem o mundo tangível, mas Superman – O Retorno é ligeiramente menos utópico que os filmes de Richard Lester e Sidney Furie, exceto pelos planos megalomaníacos de Luthor, que parece ter se mantido na linha anacrônica da Era de Ouro dos Quadrinhos, longe de qualquer resquício de modernidade.

De diferente na abordagem há a relação do mito com Lois Lane. Kate Bosworth faz uma repórter incrédula, que em um primeiro momento se mostra independente e resoluta, escondendo uma profunda mágoa de ter sido abandonada por seu par ideal. O prêmio Pulitzer que recebeu pela matéria O Mundo Não Precisa do Superman já é a mostra de que a mulher seguiu em frente, ou ao menos tentou, atitude ratificada pelo noivado com Richard White (James Marsden), do qual resultou em seu herdeiro Jason (Tristan Lake Leabu), o simpático e frágil filho que carrega consigo. A demora para introduzir a moça na história é sábia, e faz do distanciamento desta com Kent/Superman o artigo mais inteligente do roteiro.

Há pedaços e falas inteiras retiradas dos filmes anteriores, que podem ser encarados com easter eggs ou como muletas para a dificuldade que Singer tem em seguir em frente. O receio de mexer no patrimônio de herói, que para si era muito caro desde sua infância pobre e conturbada, graças ao fato de ser judeu, órfão e homossexual, acaba por tornar o filme um objeto covarde, que se vale mais da autoria de outros, e não só de Donner. Os pontos altos do filme são as referências à primeira capa de Action & Comics e à narração do programa televisivo dos anos 50 executado por George Reeves.

A mitologia do personagem mudou ao se basear em outro arquétipo bíblico. Joe Shuster e Jerry Siegel tinham em Moisés o ideal para a construção de seu herói, seguido por quase todas as versões transmídia. A ideia de Singer era parafrasear o messias cristão, o que vai na contramão do judaísmo dos autores e do próprio diretor, que se rebelava mais uma vez contra os dogmas ensinados a si desde o berço. Há muitos outros signos bíblicos, como o salvamento da nave espacial Genesis, que acomodava sua amada, e mais um capítulo do avanço do homem ao espaço inexplorado.

O modo como Superman – O Retorno é registrado é belíssimo. A fotografia de Newton Tomas Sigel é competente ao reprisar o mundo abstrato pensado pelos Salkind. Destaca-se também a direção de arte de Hugh Bateup, resultando no aspecto mais equilibrado, principalmente quando foge do genérico cenário de Metropolis. O problema é que os aspectos visuais não fazem superar o ritmo demasiado lento, não condizente com a época em que se situa. Este aspecto faz a união entre este universo e o de Batman Begins tornar-se ainda menos passível de uma unidade tardia entre os heróis da DC.

A crítica mais frequente a Superman – O Retorno é em relação às cenas de ação, atribuindo o clímax ao salvamento aéreo, ocorrido com menos de uma hora de filme. A cena em que o filho de Krypton levanta o pedaço de Terra, repleto da matéria prima que o faz vulnerável é igualmente épica, no entanto, para o herói funcionar, é necessário um inimigo à altura, e isso não ocorre com o Luthor de Spacey, que até se esforça, mas funciona somente como paródia. Não há embate físico, não há medo de que o protagonista pereça, até os laços consanguíneos são mais interessantes do que o destino do messias que retornou para remir a humanidade. A construção do herói clássico parece ser a mais fácil de se construir mas de fato não é, e a aura de fantasia não se sustenta caso os sinais não fossem levados a sério. Como não são, no filme de Singer, resultam-se em um produto muito desequilibrado e sem caráter próprio, com um herói que, ao final de sua jornada, se mostra falido e anacrônico.