Crítica | A Época da Inocência

O cinema pomposo e aristocrático de A Época da inocência não deixou tantas marcas no seu realizador, mas na nossa própria concepção sobre o seu talento. Ainda mais quando sabemos, de antemão, que o universo dele não é exatamente o mesmo cosmos de elegância e cascatas de white people problems que o vemos mergulhando sua maestria em prol de uma boa história adaptada de um livro de 1920, pronta então a ser narrada intrínseca e inseparavelmente às cadências de suas formas e elementos burgueses, históricos e orgulhosamente ingleses, dando vasão e embalando, assim e ao mesmo tempo, um cenário perfeito e basilar para um conto de amor no maior estilo Madame Bovary, acerca da desconstrução natural (ou talvez ante natural) do mais poderoso dos sentimentos universais. Algo trabalhado aqui na linha imperiosa e consciente de um legítimo “romance dos romances”.

Curiosidade: Certa vez, ao ser indagado sobre Barry Lyndon, o gênio Stanley Kubrick não foi tão categórico assim, e afirmou que o Cinema oferece uma oportunidade melhor que qualquer outra forma de arte no que se refere a apresentar e emoldurar um tema histórico, seja lá qual seja este. De fato, Kubrick proporcionou essa experiência com a máxima exatidão e inserção possível nos anos 70, uma década depois de Luchino Visconti ter definido a visão acerca das aristocracias europeias em um dos maiores e melhores filmes da humanidade: O Leopardo, de 1963. Assim sendo, uma vez que o diretor de O Iluminado não conseguiu superar sua encenação ultra planejada, tornando Barry Lyndon algo belíssimo e gelado, Visconti atingiu com perfeição diamantífera uma sensação palpável de como é pertencer a um mundo de intrigas inescrutáveis, dinheiro, poder e desconfiança fartos a influenciar todas as suas relações, orgulhos e preconceitos.

Cortando para década de 90, temos o famoso Martin Scorsese abandonado a selvageria urbana de Nova York, e aventurando-se em mares desconhecidos que tentou traduzir, e transmitir as suas verdades, do livro para a tela que esse já conhecia muito bem. O charmoso A Época da Inocência vale principalmente por isso, sendo mais uma aula de cinema hollywoodiano pelas mãos de Scorsese, constante e quase sem sobressaltos como não é de se esperar dele, mas desta vez com muito menos paixão e envolvimento genuíno por conta do nosso realizador, tentando nos convencer estar por dentro da pompa que cerca e compõe costumes majestosos, guiados por posições sociais e baseados por um luxo que atinge as arrais do existencial entre bailes, óperas e tardes ensolaradas treinando arco e flecha em parques ingleses de impecável graça aos bem nascidos.

Enquanto o bon-vivant Newland Archer (Daniel Day-Lewis, sempre atuando com os olhos) se divide entre a segurança de sua adorável e sentimental noiva May Welland (Wynona Rider, a Joyce de Stranger Things), e a possibilidade inocente e quase irresistível de um novo amor mais maduro e mais difícil, e que faz girar o seu mundo de ponta a cabeça, como bem simboliza a linda cena do ensaio fotográfico (que o próprio cineasta faz uma ponta, atuando como o fotógrafo), o filme se revela não um estudo de inserção, mas de observação de um universo que o observador não faz parte, mas anseia por decifrar, cena após cena, conflito após conflito, e que, sob a regência de Scorsese e suas ótimas atuações (em especial a de Rider), se tornam deliciosamente reais, fortes, e calcados num drama tão quente e envolvente quanto os olhos cândidos de Newland encontrando sua amante, beijando seus pés de seda. Mais um homem refém do proibido.

Eis um filme caprichado em sua estilização, e sem ser afetado por ela ao longo de suas duas horas, como é importante frisar. A Época da Inocência conta com um dos mais belos trabalhos de figurino e direção de arte dos anos 90, junto de Titanic e o asiático Adeus Minha Concubina. É incrível sentir toda a nobreza da história também através dos seus bordados, cenários e guarda-chuvas cor de rosa, meticulosamente elaborados num trabalho original notável até para o mais leigo e acrítico dos espectadores. Mesmo assim, nem a mais bela das alegorias escondem o desafio que foi para Scorsese trocar o sangue amargo dos seus Os Bons Companheiros, pelo chá e os pés de seda de finas damas europeias. Contudo, mesmo sem negar agir como mero observador de uma burguesia deveras distante, eis um filme seguro de si, e que ainda acha espaço para admirar também um estilo de vida que se perdeu no tempo, e que, como Kubrick afirmou, o Cinema consegue eternizar melhor que qualquer outra invenção humana até então.

 

Facebook – Página e Grupo | Twitter Instagram.