Crítica | Friedkin Uncut

Em 2017, durante o Festival do Rio pude assistir O Diabo e o Padre Amorth. Um ano depois, um novo documentário envolvendo o nome de William Friekin chegava em circuito, dessa vez comandado por Francesco Zippel, roteirista e documentarista que acompanhava o cineasta durante a produção do filme citado. Friedkin Uncut além de acompanhar o diretor, também reflete sobre sua obra e alma, de uma maneira bem íntima de direta.

A trama não demora a falar da obsessão de William com o diabo e a  religião, e claro, se debruça bastante sobre O Exorcista. Logo começam as entrevistas com famosos, incluindo Wes Anderson, Quentin Tarantino, Walter Hill, Juno Temple, Phil Kaufman, Francis Ford Coppolla (que fez A Conversação com auxílio de Friedkin), Dario Argento e tantos outros. Uma das mais notórias é Ellen Burstin, uma das estrelas do clássico de terror, que dizia achar ter preparo para a experiência de filmar o longa que se tornaria um clássico, mas ao fazê-lo se surpreendeu com a dificuldade. Para ela, Friedkin não filosofa sobre o mal e sim o mostra, assim como acerta em ter alguma base na realidade, pois com isso assusta ainda mais o seu espectador.

Entre as anedotas mais legais do filme estão as falas de Tarantino, que destaca que as filas dos cinemas eram enormes e o medo de sua mãe em deixá-lo assistir. Friedkin mesmo tendo origem judia se dedicava a analisar e ler o Novo Testamento, parte canônica da Bíblia que não está na Torá, e de certa forma ele passou isso aos que faziam o filme, na criação da atmosfera. O diretor era teimoso, e se não fosse por sua insistência Jason Miller não estaria no elenco, pois era pouco conhecido.

Quando era mais novo ele vivia pregando peças nas pessoas, assustando-as só por ter prazer em ver a reação das pessoas, e isso conversa demais com um dos aspectos que compõem seu estilo de dirigir, sempre priorizando a primeira tomada que faz, por achar a reação do elenco mais genuína. Zippel acerta demais ao fazer o espectador se apaixonar pela figura analisada, pois o modo como ele conduz seus filmes é igualmente movido por sentimentos impulsivos e de paixão e isso de destaca na entrevista de Gina Gershon, que fez Killer Joe. Gershon o descreve como um diretor do método, por conta da aura criada no set. Ele a fazia se sentir um lixo, para encarnar bem o personagem – e em entrevistas na época, Linda Blair fala algo semelhante – tanto que em cenas de nudez ele também tirava a roupa, para que as atrizes não se constrangessem em serem as únicas nuas, para que ao menos algum pé de igualdade existisse ali.

Friedkin filmava bastante de surpresa seus atores e também não se incomodava quando a câmera aparecia no corte final dos filmes, para ele, era óbvio que as pessoas entenderiam que é necessário esse tipo de equipamento para fazer a história que as entretém. Após assistir Cidadão Kane ele decidiu fazer cinema, pois se sentiu tocado com o quanto aquela obra tinha poder. O pensamento e palavras do cineasta são extremamente simples e ele até confessa uma dificuldade, a de dar nota aos filmes, pois para ele mensurar o quanto um filme é bom ou não através de números é algo errado e simplista demais, e ele obviamente tem sua razão.

Logo o documentário volta a refletir sobre a filmografia do biografado, e Friedkin declara que acha seus filmes ruins, medíocres, mas ao menos, tem alguma importância. Seu documental The People vs Paul Crump, segundo ele, salvou a vida de Paul, que foi julgado inocente apesar do próprio artista achar que o filme em si não era muito bom. Já quando se  fala de Operação França, o quadro muda, apesar do gosto do sujeito não se alterar tanto. Friedkin diz que algumas cenas do corte final jamais poderiam ser feitas hoje, em especial as de perseguição pelas ruas do Brooklin, pois eram perigosas e viscerais demais, para Edgar Wrigth, os filmes do cineasta não envelhecem por expressarem bem a realidade. Há outra fala interessante, de Sonny Grosso que diz que algumas das histórias do filme ocorreram consigo, que trabalhava como policial infiltrado e com o diretor, que o acompanhou por alguns dias. Sua definição de cinema passava principalmente pela verdade.

A proximidade do fim da vida o deixa o personagem central do filme inconsolável, indócil e melancólico. Talvez se já não tivesse uma idade avançada na época do filme (72 anos) ele não conseguiria ser tão franco e certeiro. O mesmo afirma que não se considera um artista e nem seus filmes com arte propriamente dita, ainda que valorize alguns exemplares de sua filmografia para além da aceitação de público e crítica, como Comboio do Medo, que segundo ele é é seu filme para entrar na memória. Ao falar sobre o que deu errado ali, ele diz que  o sucesso tem muitos pais mas o fracasso é órfão.

Algumas das influências e cultos do diretor são revelados, ele elogia muito Buster Keaton, e diz que ninguém filma perseguições como ele. Também demonstra admiração por Fritz Lang, com quem conversou já no final da vida, para um filme que fez. Lang é descrito como um homem cheio de manias, genioso e engraçado, expressivo mesmo sem conseguir se locomover muito no final da vida. Entre as histórias, a de que Lang achava que seria morto quando Hitler subiu ao poder, por conta de seu filme Dr. Mabuse. Lang também não apreciava muito a própria filmografia e isso conversa bem com a visão sobre a própria obra que Friedkin guardava sobre si, não se sabe se por influência do diretor alemão, ou em concordância via acaso com o pensamente do seu ídolo.

Friedkin considera que um cineasta precisa de três fatores principais, ambição sorte e graça divina. Em atenção a isso ele declarava que gosta muito de Damian Chazelle e Kathryn Bigelow dos que fazem cinema atualmente. Toda a discussão sobre Parceiros da Noite volta a ter Tarantino como centro das articulações. O rebuliço que ocorreu na imprensa e na comunidade gay não faz com que o realizador de Pulp Fiction diminuísse a sua admiração pela película. Ainda sobre os filmes, há uma historia curiosa sobre Viver e Morrer em Los Angeles, onde o dinheiro falso que eles fabricaram  foi extraviado e utilizado, segundo reza uma lenda. Aqui, Friedkin teria outra recepção ruim da crítica, basicamente por apostar em rostos desconhecidos, incluindo aí Willem Dafoe, e por perverter a regra de não matar seu protagonista.

Não conseguir transcender a realidade é uma das reclamações constantes de Friedkin e uma das razões para ser tão crítico a seus trabalhos. No entanto, o que se vê são artistas e influenciadores de diferentes áreas se rendendo ao seu modo de ver cinema, e agradecendo por tudo o que fez. Matthew McConaughey mesmo diz que só conseguiu o papel de Rustin Cohle em True Detective por conta de Killer Joe. Zippel consegue inspirar demais em seu filme e mostra uma faceta emocional e encantadora de William Friedkin, prestando uma homenagem ainda em vida a sua obra e ao seu caráter, carregado de humor ácido e ironia, como é de praxe na carreira do diretor.

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